Por Elba Gomes

Haja hoje para tanto ontem – Paulo Leminski

Que o mundo mudou profundamente, de pouco tempo para cá, ninguém tem dúvida. As novas gerações, vez por outra, se deparam com objetos que são totalmente desconhecidos para elas. Parecem coisas de um passado distante e, de fato, quando muitos dos jovens de hoje nasceram, aqueles objetos já estavam enterrados. Viraram peças de museu.

Há alguns anos, minha neta Maria Lontra visitando o escritório de sua tia Luciene viu em cima de um armário um objeto esquisito.

– Tia Lu, o que é isso?

– É uma máquina de escrever.

– O quê? Isso serve para escrever? Como assim?

Assim, Maria. Você não tecla no seu Lap top? Pois o princípio é o mesmo.

E Maria passou boa parte da manhã futucando o tal objeto e descobrindo, entre surpresa e curiosa, a função de uma máquina de escrever manual.

Há uns dez anos, quando a última das minhas filhas se casou, estava eu em Fortaleza e resolvi aproveitar a oportunidade para comprar uns lençóis de linho bordado para o seu enxoval. Um primor! Dava gosto ver os bordados em ponto cheio com crivo, as rosas matizadas, as bainhas abertas. Algum tempo depois, ela me devolve os lençóis, pedindo desculpas e dizendo que nunca havia usado aquelas peças porque preferia os lençóis com florais que havia comprado nos Estados Unidos e aqui no Brasil.

Um pouco sem entender, um pouco frustrada pela devolução, guardei os benditos lençóis e também nunca os usei. Serviram para presentear algumas amigas românticas que ainda era apaixonadas por aquelas obras de arte das

bordadeiras. E, assim, o tempo vai passando e levando com ele tantas coisas que no nosso passado eram eleitas como “maravilhas”.

Mas, nem tudo eram flores. Tudo era muito trabalhoso e exigia tempo, paciência e, muitas vezes, sacrifício. Ainda me lembro do suplício que era bordar peças de enxoval para o meu futuro casamento. E ainda havia um baú onde se guardavam aquelas preciosidades. Eu, que nunca tive “mãos de fada”, como se dizia à época, sofria com os riscos, as agulhas, as linhas e os pontos.

Por isso, trago hoje para minhas leitoras e leitores uma crônica do jornalista Alberto Villas, “Bordando”, retirada do seu livro “onde foi parar nosso tempo?”

“As mulheres da minha geração abandonaram o tanque, o ferro, o fogão, as louças, a vassoura e o sutiã, mas a geração da minha mãe, da minha avó, não. Eram mulheres prendadas que lavavam, passavam, arrumavam, costuravam. Principalmente bordavam. Passavam horas e horas bordando e tricotando.

– Que toalha bordada mais linda! – dizia a minha mãe para a minha avó.

Sim, era uma toalha de mesa de linho branco inteiramente bordada por ela. Eu não entendia e nunca entendi como alguém podia fazer uma rosa, um cravo tão perfeitos num linho apenas com agulha e linha. Mais impressionado ainda ficava ao ver minha mãe assistindo à novela “Se o mar contasse” e, sem colocar os olhos nas agulhas, tricotar um casaquinho de lã tão certinho.

A vida não era nada simples, tudo tinha de ser bordado. Quando alguém na família ficava noiva, era um reboliço de tias e vizinhas bordadeiras.

Todas se empenhavam em começar a bordar o enxoval que ia desde a famosa toalha de mesa, passando por paninhos de prato até chegar à camisola do dia. Tudo tinha de ser caprichosamente bordado.

Uma prometia fazer a toalha, a outra os panos de prato, e a mais velha e experiente, a camisola do dia. Linha de todas as cores eram compradas e era dada a partida. Eu ficava só espiando e ouvindo-as falar num tal ponto de cruz,

ponto cheio, que pra mim não tinha diferença nenhuma. Falavam em fios de algodão, de seda, lã, linho.

Trocavam experiências e babavam quando falavam das bordadeiras do Ceará, quando sonhavam com as bordadeiras da Ilha da Madeira. Minha mãe era a única que tinha voado para o Ceará e conhecido de perto as tais bordadeiras. Ilha da Madeira só na fantasia.

Sim, dava para bordar vendo televisão ou ouvindo o César de Alencar no rádio. Mas elas passavam horas e horas ali sentadas bordando. Muitas vezes tricotando, como se diz hoje. “Fofocando”.

bordado20_590x393

Fotos: Divulgação