Por Elba GGomes

As moças tinham cintura fina. Os vestidos podiam ser de tecido xadrez, de listras, com florais; o tecido podia ser de algodão, linho, tafetá, anarruga ou organdi. Os de algodão não obedeciam a nenhum padrão, mas se o tecido fosse liso, poderia haver aplicações de cores sobrepostas formando flores e folhas. Os de linho eram quase sempre bordados em ponto cheio, crivo e bainha aberta; às vezes, bordados em ponto matiz, de cores variadas. Os de organdi, sempre muito delicados, iam do branco, ao amarelinho, rosa, azul claro, com ou sem florais, invariavelmente, com uma faixa de veludo preto na cintura. Pareciam rosas tímidas anunciando a primavera.

Tudo era muito concertado, como uma orquestra deixando no ar notas harmônicas: os vestidos, os sapatos, os adereços, as fitas no cabelo… Um vestido para cada evento, e ai de quem tivesse a infelicidade de topar com alguém com um igual. Um dos dois viraria sucata e seria reformado para se transformar em outra peça. Lembro-me de que, certa vez, numa procissão de São Sebastião, estava eu desfilando com um vestido azul-marinho todo barrado com aplicações de folhas em branco. A parte da frente da blusa e as mangas continham também essas aplicações. Eu, toda ancha, acontecendo com aquela obra-prima quando, de repente, dou de cara com  uma réplica do meu vestido. Meus olhos não acreditavam no que viam e, chocada, corri desabalada pra casa tentando esconder minha vergonha. Nunca mais o vesti e nem sei o que foi feito dele. Não sei como aquilo acontecera, visto que não tínhamos revistas de modas para copiar nenhum modelo. Uma terrível coincidência ou, talvez alguma espionagem no nosso mundinho da moda. Com as moças era mais difícil de acontecer um desastre desse tipo porque elas eram mais cuidadosas e  se comunicavam, trocavam ideias, e creio até que exerciam certa vigilância umas sobre as outras.

Tínhamos uma vizinha muito culta, uma mulher admirável – D. Nazinha – que, entre tantos conselhos sobre a vida, sempre nos dizia: não misturem listras com xadrez; não combinam. Observem como a natureza é harmônica; as plantas não se misturam e os animais andam em bandos com os de sua espécie: passarinho voa com passarinho; sabiá voa com sabiá… as fitas têm que combinar com as cores dos vestidos, a não ser as de cores neutras; os sapatos também.

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No meio de toda essa orquestração de bordados, fitinhas, laços, botõezinhos havia um item que reinava soberano: a anágua. Ela era responsável pela elegância de qualquer vestido. Feita de morim branco, era confeccionada, geralmente, em três camadas que iam aumentando de tamanho, da cintura para baixo. As mais ousadas tinham até quatro metros de roda na parte final. Daí vinha o ritual do preparo: fazia-se uma goma de farinha de trigo com água  e, nela, imergia-se a anágua. Imaginem o peso daquela coisa empapada de goma, levada ainda quente para o varal onde era escorada por cabos de vassoura para secar. O uso da anágua engomada, dava volume ao vestido e status a quem a usava.

Lembro-me bem de um episódio acontecido com minha irmã Zélia, mais velha do que eu, por causa de uma anágua. Havia, na minha cidadezinha uma praça pequena em frente ao cinema. Aquele era o point onde as moças desfilavam, enquanto os rapazes, sentados nos bancos, ficavam a observá-las, corujando, como se diz, de longe. Dali saiam os namoricos e, posteriormente, algum noivado que podia desembocar num casamento.

Pois então, minha anágua não secara a tempo, era um domingo e eu precisava fazer meu tour pela pracinha. Depois de muita conversa com minha irmã,ela emprestou-me uma anágua, já que, como mais velha, tinha direito a duas. Passeávamos tranquilamente quando, de repente, sem mais nem menos, saiu uma discussão e minha irmã então jogou-me na cara: “Você é muito metida, mas tá usando minha anágua.”. O sangue ferveu e não contei até três: Levantei a saia, desabotoei a anágua, puxei-a por baixo, deixei-a em pé, durinha na calçada, feito um cone, e fui pra casa. Minha, irmã, envergonhada, juntou o restinho de orgulho que sobrara e carregou a anágua nos braços. Nem preciso contar o que aconteceu depois…

Foto: Divulgação