Em entrevista, ator Irandhir Santos comenta sua participação no filme A História da Eternidade, em cartaz na capital, e sobre sua terceira parceria com o diretor Luiz Fernando Carvalho

 

André Luiz Maia

A liquidez do mar, infiltrando-se pelos vincos da terra castigada pelo calor do Sertão. Com esta alegoria, talvez seja possível explicar o significado da presença do personagem João em A História da Eternidade, do diretor pernambucano Camilo Cavalcante. Para quem ainda não viu – a produção ainda está em cartaz no Cinépolis Manaíra Shopping, às 12h e às 19h30 –, trata-se de uma história ambientada no Nordeste, coestrelada por duas paraibanas: Zezita Matos e Marcélia Cartaxo.

Em um minúsculo vilarejo no Sertão nordestino, as histórias de três mulheres, cada uma de gerações diferentes, se cruzam por causa do amor. Das Dores (Zezita Matos) é uma matriarca forte, que sustenta sua família e abriga seu neto (Maxwell Nascimento), que voltou do Sudeste recentemente. Querência, interpretada por Marcélia Cartaxo, acaba de perder seu filho pequeno. Para curar a dor de seu coração, o cego Aderaldo (Leonardo França), com seu acordeão, a corteja diariamente.

A jovem Alfonsinha (Débora Ingrid) tem como principal objetivo conhecer o mar, embora a distância entre sua realidade e o desejo seja de centenas de quilômetros. Quem a ajuda é seu único amigo, o tio João (Irandhir Santos), que tenta protegê-la de um pai rígido (Claudio Jaborandy). Irandhir, em entrevista feita durante a estreia do filme, contou um pouco da experiência de viver o personagem, durante a estreia da produção nos cinemas paraibanos.

O convite partiu de Camilo, que o introduziu a João como “uma pérola dentro de um contexto”. O contexto, no caso, é um vilarejo mínimo, habitado por menos de cinquenta moradores, no seco Sertão pernambucano. “Quando eu li o roteiro, vim entender ao que ele estava se referindo ao chamar de pérola. A veia artística é muito latente em João. O que mais me impressiona nele é que, diante daquele cenário, ele se expressa da maneira que ele se expressa, buscando sempre a arte nas pequenas coisas. É um cara que é capaz de criar uma peça de artes plásticas, é um performer, um poeta, um personagem que tem uma versatilidade que me interessava e muito viver”, comenta o ator.

Ele também protagoniza uma das cenas mais belas do filme, quando, munido de um manto artesanal, feito de miudezas encontradas no próprio local – a exemplo de um osso de galinha –, leva sua modesta vitrola para a frente de sua casa e toca ‘Fala’, faixa do primeiro LP do grupo Secos & Molhados. Como em estado de transe, todos da vila param para tentar entender o que aquele significava aquele elemento estranho.

“Foi um encaixe de alguém que poderia ganhar o mundo, pela maneira como ele se expressa, mas que se torna recluso em um círculo atmosférico que é aquela vila, onde há mais gente morta que viva. E, para aquele local, era preciso de alguém como ele, com uma vida extremamente forte”, completa Irandhir.

Na cidade há um mês, o ator afirma que sempre está em João Pessoa, local onde morou por dois anos. “É meu ponto de referência de retorno. Uma cidade que me dá toda a paz necessária para se refletir sobre arte, uma cidade que inspira os artistas, haja vista os artistas que existem por aqui, como meus amigos do Grupo de Teatro Piollin e do Alfenim, que são inspiradores. Sem falar na própria beleza natural da cidade, que é magnética”, enfatiza o ator, que fica em João Pessoa até o meio deste mês, aguardando o início das filmagens de sua participação no seriado Dois Irmãos, baseado no livro de Milton Hatoum.

Parceria

Pela terceira vez, irá trabalhar com o diretor Luiz Fernando Carvalho. “O Luiz é um bruxo. Quando ele me chamou para A Pedra do Reino, ele germinou em mim um sedimento, reafirmando minha arte”, comenta. Formado recentemente em teatro, Irandhir ainda estava em dúvida se iria seguir na área. “Receber um convite desse que Luiz me fez de ser a figura central de uma história que ele iria conduzir, história essa de um grande mestre que é Ariano Suassuna, com um personagem difícil como Quaderna, ele sedimentou em mim a confirmação de que era possível trilhar o caminho da arte. Devo isso a Luiz Fernando Carvalho”, revela.

A segunda oportunidade veio em Meu Pedacinho de Chão, onde interpretou um dos protagonistas, o bronco (porém adorável) Zelão. “Ele me apresentou ao grande público e me deu um presente, que foi o Zelão, que parece mais um daqueles brinquedos com o que eu adorava brincar na infância”, explica o ator pernambucano.

Zelão (Irandhir Santos) foi um dos protagonistas da novela global Meu Pedacinho de Chão, que trouxe uma estética visual arrojada, dirigida por Luiz Fernando Carvalho
Zelão (Irandhir Santos) foi um dos protagonistas da novela global Meu Pedacinho de Chão, que trouxe uma estética visual arrojada, dirigida por Luiz Fernando Carvalho

Sobre a novela global, que trouxe um apelo estético completamente inovador para o formato, Irandhir Santos acredita que esse tipo de iniciativa é instigante. “É uma característica do Luiz, apostar na inovação e não desconfiar do grande público em relação à sua Inteligência e absorção. Ele não entrega nada mastigado e exige sempre o melhor de todos nós, o que evita que caiamos na mesmice. Estar com Luiz Fernando é se reinventar. Eu estaria ao lado dele a vida toda, se ele quisesse”, completa.