Um certo vestido verde

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Foto de família: Maria Lontra no casamento do irmão Carlos Eduardo Lontra Pires e Manuela Quintaes. João Pessoa, 8 de setembro de 2012.

Por Elba GGomes

Família, instituição poderosa. “Sagrada família”, já dizia o escritor Zuenir Ventura, em seu livro, do mesmo nome. Quando há um evento importante, único, as mulheres entram em estado de ebulição. “Meu Deus, tenho que me preparar!”

E começa a azáfama: “Com que vestido irei? “E os sapatos?” “Você tem uma carteira para me emprestar?” “Os acessórios eu já os tenho: muitos. Dá para me arranjar.”

O casamento fora marcado de última hora e não haveria tempo para um planejamento mais aprimorado. Nem daria tempo para mandar fazer um vestido de festa, à altura do grande acontecimento.

Começou a batida no guarda-roupa: vestidos de várias cores e modelos que, embora já estreados em outras ocasiões, serviriam perfeitamente para o casamento da prima.

– Mãe, será que este cinza ficará bem? É um modelo grego e este cinto dará o toque final.

– É… Tá bonito.

– Não senti firmeza.

– Por que não vai com este verde água, lindo?

– Não, esse não porque já fui a dois casamentos com ele.

– E esse preto?

– Ah, mãe! Usar preto em casamento é horrível.

– Alugue um, então. Há modelos muito bonitos nas lojas.

– Não posso porque já gastei muito no casamento da Tamine. Não lembra que comprei meu vestido dourado e que me custou o olho da cara? Tá doendo até hoje. Só fiz isso porque eu era madrinha. Nesse casamento da Jamile não vou ser madrinha.

– Pois fique com o vestido estilo grego. Tá muito distinto.

Como se sabe, mãe é mãe, e aquilo ficou martelando na cabeça da genitora. Pensa daqui, pensa dali, vasculha as lembranças e, de repente, deu um estalo: O vestido da Maria! Lindo, verde, feito pelo pai, um estilista primoroso. Mal pensou, ligou para a filha que mora em João Pessoa:

– Alessandra, onde está o vestido verde da Maria? Já que ela não vem ao casamento você poderia emprestá-lo para a Danielle. Manda pela Vera. Ela está voltando de dia 28 e até 07 de janeiro dá tempo de fazer algum ajuste. Daí, você leva o bendito de volta, após o casamento.

O vestido chegou. Foram a uma costureira, que fez os reparos necessários. Ficou lindo no corpo da prima. Casamento chegando e o maior problema resolvido.

Enquanto isso, em João Pessoa…

“Mãe, meu pai vai enviar um vestido por você porque tenho um casamento aqui em João Pessoa para ir. Passe na loja dele e pegue, por favor.”

O casamento da prima Jamile foi uma explosão de requinte, beleza, sofisticação e alegria. A família, competindo com os fotógrafos profissionais, na expectativa de ter fotos em primeira mão, esmerou-se nos “cliques”, de tal sorte que, em tempo real, o WhatsApp do grupo da família estava repleto de cenas maravilhosas.

No dia seguinte ao casório, em Brasília, o pai da Maria, vendo as fotos do casamento, olha para a foto da Danielle e exclama: “Mas esse é o vestido da Maria! E ela me perturbando por muito tempo, dizendo que o vestido estava comigo”.

Maria, inteirada do fato, sem entender direito a confusão, manda uma mensagem para a mãe: “Mãe, por um acaso o vestido que a tia Dani usou no casamento da Jamile é o meu? Tá muito parecido. Se não for então eu perdi ele.”

E a mãe, Alessandra responde que sim. “É o seu vestido que estava aqui no quarto da bagunça todo amarrotado. Achei que você não quisesse mais. Você não disse que seu pai iria te mandar um vestido? Achei que fosse um novo vestido. Há alguns meses perguntei por esse vestido e você me respondeu que estava em Brasília. Então achei que você nem quisesse mais ele. Como a Dani estava lá doidinha atrás de um vestido eu ofereci o seu.”

“Mas, mãe, você tem noção do tanto que eu briguei com o meu pai dizendo que esse vestido estava em Brasília?! Eu botei meu pai doidinho atrás dele.”

E a mãe responde: “Nem sabia que era aquele vestido que seu pai iria mandar por mim.” E a Dani mandou apertar no busto.

Maria, aliviada, ri da situação, e envia outra mensagem para a mãe: “Agora você peça a meu pai para desapertar o vestido e traga-o de volta, que vou usá-lo daqui a uma semana.”

O fato é que o maravilhoso vestido verde, alheio a todos encontros e desencontros,  reinou, mais uma vez, numa fantástica cerimônia de casamento.

Foto de família: Danielle Lontra no casamento da prima Jamile Lontra El Hajj e Sérgio Victor. Anápolis - 07 de Janeiro de 2017
Foto de família: Danielle Lontra no casamento da prima Jamile Lontra El Hajj e Sérgio Victor. Anápolis, 07 de Janeiro de 2017.

 

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Elba Gomes
Nasceu em Pilões, na Paraíba. Graduada em Letras Clássicas e Modernas pela UnB, fez mestrado em Educação. É professora, educadora e especialista em Avaliação da Educação Básica - Prova Brasil – Língua Portuguesa. Começou como professora aos 16 anos de idade. A leitura foi sua vocação primeira. É escritora de livros infantis, com o pseudônimo de Elba GGomes e tem mais de quinze livros publicados. Participa de eventos para o desenvolvimento do processo de leitura e escrita, mediação de leitura e formação de professores na área de avaliação da educação básica. Escreve o blog: www.1blogdeleitura.blogspot.com.br. A escritora estará neste site, toda segunda-feira, escrevendo crônicas (A crônica de todos nós), tecendo comentários sobre livros infantis (De olho nos livros) e escrevendo ou publicando poemas de outros autores (Todo dia tem poesia).