Eles desejam mais do que contemplar belos cenários e consumir mercadorias. Para estes turistas, tão essencial quanto conhecer o destino é vivenciar a rotina do local

Um novo grupo de turistas tem sido visto desbravando destinos pouco conhecidos em busca de interação com o meio ambiente e envolvimento com a população. Trata-se de um turista solidário, símbolo de uma nova geração de viajantes participativos, que prefere se hospedar na casa de moradores e participar das atividades da comunidade.

Para estes viajantes, tão essencial quanto conhecer o destino é vivenciar a rotina do local. “Eles veem no turismo uma oportunidade de obter experiências que vão além do consumo e da contemplação de cenários”, diz Rafael Fortunato, coordenador de Turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Esse novo viajante, segundo ele, em geral jovem e das mais variadas classes sociais, cresceu influenciado pela força do movimento socioambiental e se vê como um agente de mudanças. 

São pessoas como a médica residente Helena Taveira, de 26 anos, que após se engajar em um trabalho acadêmico em vilarejos pobres de Minas Gerais, já foi quatro vezes ao Vale do Jequitinhonha falar sobre doenças sexualmente transmissíveis e métodos contraceptivos. “Aprendi a considerar o paciente além de suas queixas, conhecer de perto o outro e respeitar ainda mais o ser humano”, afirma.

A interação também beneficia as comunidades. A dona de casa Nacibe, de 69 anos, hospeda em sua casa turistas interessados em experimentar a vida rural e a rotina de trabalhadores locais que se apoiam em trabalhos manuais para sobreviver. Ela vive em Mendanha, um distrito da cidade de Diamantina, que tem como vocação histórica a extração de pedras preciosas. “Já pude aprender um pouco de francês com uma estudante da França que passou quatro meses aqui. Tenho contato com os viajantes, eles sempre voltam depois”.

Ainda não há um grande número de passeios estruturados para este público nas agências de viagem, segundo Leonel Rossi, vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagem (ABAV). “Alguns roteiros, no entanto, já têm como propósito a interação mais profunda com o destino”, afirma. De acordo com a entidade, há uma tendência de os pacotes incluírem passeios que tenham como atrativo a solidariedade.

Há 15 anos uma operadora de turismo de Minas Gerais leva turistas ao vilarejo de Capivari, local conhecido pelos atrativos naturais e a prática do turismo sustentável. Desde então, apoiados pela agência, os viajantes passaram a voltar para Capivari uma vez por ano para doar à população seu tempo, trabalho e talento. “Formamos o grupo Amigos de Capivari, com mais de 500 colaboradores. Hoje atendemos demandas de saúde, educação e entretenimento da comunidade, inclusive com implementação da rede de abastecimento de água potável”, diz a proprietária da empresa, Cirlene Soares. 

Entre os programas do Ministério do Turismo voltados para a responsabilidade social e sustentabilidade estão o Passaporte Verde, que sugere destinos que motivam o viajante a interagir de modo sustentável quando viaja, e o Talentos do Brasil Rural, que estimula o turismo em comunidades e cooperativas rurais. Em comum, eles têm o apoio a ações que promovem o desenvolvimento local, a qualificação profissional, valorizando a comunidade, gerando emprego e renda.

MTur