Por André Luiz Maia

 

Capa Zambê

Descendo das nuvens, um super-herói de macacão branco e luzes de LED chega ao planeta Terra, montado em seu carrinho de rolimã. Embora a descrição pareça mais a de uma história em quadrinho tupiniquim, ela se refere à concepção estética do álbum Zambê (Pimba / Dubas Música, R$ 25,90), primeiro trabalho solo do músico Donatinho que acaba de ser agraciado com o título de Melhor Disco de Música Eletrônica nacional pelo 26º Prêmio da Música Brasileira.

Em dez faixas, o carioca – filho do enfant terrible da bossa nova, João Donato – brinca com os ritmos regionais do Brasil profundo, criando uma roupagem cosmopolita para os sons que encontrou por sua pesquisa musical. As batidas de house, electro, trip-hop, hip-hop, dub e outras vertentes eletrônicas são infectadas por samba, choro, moda de viola caipira e coco de roda. Também há espaço para a musicalidade afro-brasileira interpretada por Rita Beneditto, em “Janaína”, e “Índios”, canto indígena interpretado por Luka (sim, a do hit radiofônico “Tô nem aí”). Em um trio inusitado, Donatinho, Kassin e Dona Onete se unem para criar “Dança dos urubus”, releitura 8-bit (aquela sonoridade típica da música de videogames) do carimbó.

Concepção visual do CD de Donatinho aposta no futurismo (Foto: Renato Pagliacci)
Concepção visual do CD de Donatinho aposta no futurismo
(Foto: Renato Pagliacci)

Nessa caldeira em plena ebulição, não poderia faltar a Paraíba. Somos bem representados pela dupla Chico Correa e Totonho, responsáveis pela programação e vocais, respectivamente, da faixa “Ladrão de Alma”. “Há uns dez anos, eu participei de uma faixa do disco de Totonho, o Sabotador de Satélite, a convite de Kassin, que também é meu amigo de longa data”. Já com Chico Correa, as inquietações mútuas os aproximaram. “Ele é um grande amigo e um dos poucos que valorizam essa experimentação, que têm a consciência de que devemos valorizar o nosso som e o nosso ritmo”, explica.

Embora tenha uma carreira extensa como produtor e como integrante da banda de diversos artistas como Gal Costa, Paralamas do Sucesso, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Vanessa da Mata, Ana Carolina, Ivete Sangalo e – claro – João Donato, é seu primeiro trabalho solo. Naturalmente, ele foi se delineando como um projeto de parcerias. “Fui fazendo as músicas e pensei ‘essa tem a cara de fulano’ e fui convidando as pessoas”, declara Donatinho.

Sua intenção foi trazer a percussividade e o gingado inerente à história da música brasileira para as pistas de dança, onde há a predominância de som estrangeiro. “A gente tem uma diversidade cultural muito grande, mas não a aproveitamos. Somos mais influenciados pelas coisas de fora, principalmente no setor da música eletrônica. Se você vai a uma boate, raramente você encontra um som do nosso país”, avalia Donatinho. Para isso, recrutou um time de artistas que pudessem ajudá-lo a recriar as tradições regionais.

Um aspecto importante de Zambê é a ausência de samples, recurso muito comum ao se falar do gênero eletrônico. Isso advém de algo que incomoda Donatinho. “Às vezes pegam o canto da lavadeira, por exemplo, e botam uma batida em cima, não há uma composição, às vezes é apenas um remix. Eu tinha a preocupação de compor músicas. Chamei pessoas que pertenciam a cada universo para me aventurar pelos ritmos regionais, com gente que vive e entende aquela realidade. É um trabalho meu em parceria com vários grandes artistas”, salienta.

Os paraibanos Totonho e Chico Correa participam do disco na faixa "Prisão de Alma"
Os paraibanos Totonho e Chico Correa participam do disco na faixa “Prisão de Alma”

Sobre a conquista do prêmio, Donatinho afirma estar bastante emocionado. “Eu não estou conseguindo traduzir em palavras essa felicidade. Concorri com caras consagrados do gênero e mesmo assim, com meu primeiro trabalho solo, consegui levar. Eu acredito que os jurados conseguiram entender essa proposta de apropriação e valorização do nosso ritmo”, afirmou o músico.

Fruto da cultura pop

Se o som é importante, a criação visual em seu trabalho tem peso equivalente. Há uma preocupação estética, que parte da capa e do encarte do CD e vai até os shows. “Sou fruto da cultura pop, fã do Michael Jackson, das grandes bandas de funk soul dos anos 70. No Brasil, os artistas em geral não têm uma preocupação com o visual, pois acham que a música se basta. A música se basta enquanto está gravado, para ouvir em casa, mas quando alguém sai de casa para ver um show, a apresentação precisa ir além da música. Tem que ter um figurino legal, uma iluminação interessante. É um espetáculo, um show, como o nome já diz”, defende.

Nas apresentações do repertório do Zambê, Donatinho está trazendo uma história em quadrinhos, apresentando a história do personagem que criou, o guardião da cultura, para transformar o show em uma experiência imersiva. “Ao invés de me comunicar de forma usual com o público, vou introduzir essa história através das HQs”, completa.

*Publicada originalmente no Correio da Paraíba