Poema visual contra olhares amestrados

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Filme “Lamparina da aurora", com o ator paraibano, Buda Lira no elenco - Foto: Divulgação

Walter Galvão

“Lamparina da aurora”, do produtor, roteirista, diretor e fotógrafo maranhense Frederico Machado,  é um filme que propõe a fruição da experiência cinematográfica enquanto passagem poética que dialoga com o experimentalismo destinada  a tensionar,  aprofundar e vitalizar, entre outras presumíveis intenções, os limites da linguagem fílmica. Isso diz diretamente à percepção cristalizada que temos das coisas em meio à crise dos fundamentos racionais, éticos e morais, políticos e sociais do nosso campo existencial, crise da qual somos viventes, testemunhas e agentes.

O filme coloca esses argumentos  ao mesmo tempo em que produz estados perceptivos inéditos (reconfiguração de ritos, conversões de papeis sociais, codificações temporais ambíguas do existir) ao nosso olhar e mentalidade amestrados pelo mecanicismo da abordagem comercial característica da maioria dos filmes à disposição do público.

Numa fazenda abandonada, um casal recebe diariamente a visita noturna de um homem. A visita desencadeia ora estados opressivos, ora instantes de volátil prazer, e momentos de  delírios e de desespero.

Esse experimento que oscila entre a tragédia, o suspense e o terror,  do cineasta também autor de “O signo das tetas” (2015), obra com a qual impactou a crítica nacional, levando-a a reconhecer sua importância para o cinema brasileiro contemporâneo,  reafirma o cinema de autor enquanto espaço privilegiado para a expansão das possibilidades inventivas de uma arte que é também indústria balizada por aporte tecnológico determinante.

“Lamparina da aurora” é processo e objeto artístico que acontecem através de uma narrativa lacunar de alta densidade simbólica. Sua dramaturgia é marcada por complexidade de largo espectro composicional. E a fotografia,  cheia de belezas constrastantes, desvela um mundo em decomposição numa escala de emoções em tons graves que nos transportam à profundidade da fronteira entre natural e sobrenatural.

Há configurações de um ciclo vital que se repete em labirinto agonístico marcado pela natureza e pela cultura, o sol, o bater do coração, o sino, o relógio, fatores que se entrelaçam para desencadear pesadelos em que a morte é várias vezes ritualizada em paroxismos de fúria assassina ou de renúncia suicida.

Ousado, com elenco magistral (destaque para Buda Lira), o filme faz a evocação sutil  e incidental (não sei se intencional) de “Teorema”, de Pasolini, que chega aos 50 anos neste 2018.

Buda Lira, Antonio Saboia e Vera Barreto Leite compõem o elenco de “Lamparina da aurora”. O trabalho que a atriz e os atores realizam é uma artesania de qualidade inquestionável quanto à construção dos vínculos emotivos, cognitivos, sociais e históricos que tecem o suporte psicológico das personagens mergulhadas no ciclo de enigmas, ansiedade e estupor proposto pelo diretor.

Sem diálogos, que foram eliminados após gravados por Frederico numa decisão que gerou múltiplos ganhos para a dimensão poética da narrativa, o que pressupõe uma participação ampla da assistência quanto ao preenchimento das lacunas que ampliam a recepção e consequentente interação do público, o elenco ficou mais livre para oferecer a experiência técnica de que dispõe (consciência corporal, domínio da gestualidade simbólica, expressão facial, vocalização focal, projeções imaginativas…) experiência necessária à comunicação dos estágios de adensamento  dramático das sequencias em que as expressões são captadas de perto, em close e superclose.

O elenco conquista, na perspectiva da estética da recepção fílmica, as condições necessárias ao processo dialógico capaz de abranger o que os especialistas chamam de “diversidade das posições espectatoriais”, ou seja: consegue transmitir uma carga de informação que vai ao encontro, e também de encontro, ao campo da diversidade do repertório cultural do público. E essa diversidade é que vai gerar a um novo estado de consciência frente ao gênero.

Há uma centralidade na personagem interpretada pelo paraibano Buda Lira, de larga experiência teatral, mas que faz a estreia como protagonista de um longa metragem. A personagem que ele estrutura está o tempo inteiro imersa numa catatonia expectante como se uma ameaça pairasse incessantemente, como se fosse tal ameaça a própria atmosfera em que evolui a trama, numa paralisia existencial que exige nível de concentração só possível através daquele tipo total de imersão em que o ator se entrega após renunciar a certos parâmetros racionais da elaboração artística.

Buda conquista no filme o total esvaziamento da mente racional em benefício da organicidade da composição corpóreoexpressiva e psicoemocional da personagem. Com isso, ele opera todo o espectro da dinâmica interacional espécífica da interpretação para o cinema, as interações roteiro-corpo-cena-câmera que favorecem a autonomia das unidades dramáticas, os módulos que são filmados cada um a seu tempo, oferecendo os encaixes para que ocorra, com fluidez, a sintaxe da montagem. A resolução da dialética cena-sequência conta com o fluxo “caligráfico” da energia corporal criativa de Buda que dá seu recado de equilíbrio para fundamentar a narrativa.    Um filme, portanto, esse de Frederico Machado, que merece atenção total de quem ama o cinema.

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Walter Galvão:  Jornalista, pessoense, cursou especialização em Auditoria e Gestão Pública, atua como redator, diagramador, editor, produtor, diretor e roteirista. No serviço público, exerceu, entre outros cargos, os de assessor de imprensa na UFPB e na secretaria de Planejamento do Estado, diretor técnico de A União, diretor operacional da Rádio Tabajara, diretor de Meios da Secretaria de Comunicação Social, Diretor-geral da TV Cidade João Pessoa, Ouvidor geral, secretário de Educação, Diretor Executivo da Funjope, secretário da Transparência Pública, em João Pessoa e atual secretário de Comunicação e Difusão Digital do município de Conde (PB).

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