Artistas paraibanos ainda usam pouco, mas a estratégia do financiamento virtual já conseguiu viabilizar alguns projetos culturais no estado

André Luiz Maia

 Já é lugar-comum dizer que a tecnologia reconfigurou a forma como o artista se relaciona com sua obra e com seu público. Mas isso não se restringe apenas à comunicação e divulgação de sua arte, a produção também é beneficiada com essas ferramentas. O crowdfunding, financiamento virtual, aproxima realizadores e apreciadores, viabilizando projetos que talvez não existissem sem o patrocínio do público consumidor.

Astier Basílio
Astier Basílio

Alguns artistas paraibanos já participaram ou participam de campanhas de arrecadação virtual, seja individualmente ou de forma coletiva. O poeta e dramaturgo Astier Basílio integra um projeto especial com 10 livros de autores contemporâneos organizado por um pequeno coletivo editoral pernambucano, o Mariposa Cartonera. Os livros são feitos através de método artesanal, usando capas de papelão reutilizado.

Pela plataforma Kickante (http://goo.gl/fl7DDN), os interessados podem fazer contribuições, que vão desde R$ 10 a R$ 1,8 mil, com recompensas proporcionais a cada valor. Atingindo a meta, de R$ 4,6 mil, os livros serão produzidos de maneira colaborativa com cartoneros locais. “Não é a primeira vez que eles trabalham com crowdfunding e sempre há um desdobramento social, como oficinas”, completa Astier.

Na opinião do escritor, o financiamento coletivo levanta uma série de discussões sobre a arte e sua viabilidade. “É uma maneira de pensar a cadeira produtiva e a existência da própria literatura. O crowdfunding coloca o autor dentro de um processo que ele, historicamente, sempre foi mais alheio, o que é muito positivo. É um desafio para mim também, pois eu acabo tendo uma dificuldade de me aproximar dos leitores e esse método pode ajudar”, explica o autor, que apresenta Falsas Ficções, uma compilação de contos já publicados em revistas e suplementos.

image8Também no campo da literatura, quadrinistas já apostaram no formato de financiamento. O experiente Mike Deodato Jr. apostou na plataforma Kickstarter, onde conseguiu recursos para publicar The Cartoon Art of Mike Deodato, Jr., em 2012, e The Mike Deodato, Jr. Sketchbook, no ano passado. “Eu ouvi falar que todo mundo estava ficando rico, então resolvi tentar comprar meu iate [risos]”, afirma Deodato.

Brincadeiras à parte, a ideia foi trazida por seu empresário que, ao perceber que os projetos estavam dando certo, sugeriu o lançamento de uma compilação através do dinheiro. “Eu achei legal, pois, como não há o intermédio com a editora, o público participa da produção diretamente, o que muda toda a pirâmide editorial”, analisa o quadrinista. “É uma ferramenta primordial para quem está começando e não tem o apoio de uma grande editora”, aconselha.

E na Paraíba temos um exemplo disso. O estreante Gabriel Jardim fez seu debut com Café, que inicialmente seria custeado por um edital público. Cansado dos constantes adiamentos, decidiu lançar uma campanha através da plataforma Catarse, no valor de R$ 11 mil reais. Com 213 financiadores, ele conseguiu arrecadar mais de R$ 15 mil.

Experimento Pina nº 12Antes de lançar a campanha, entretanto, Gabriel fez uma espécie de sondagem. “Eu olhei outros projetos buscando acertos, mas também erros. Vi gente lançando projeto de livro que ainda não tinha nada feito ou mesmo com um valor extra para pagar pela própria mão-de-obra. É preciso entender que o crowdfunding serve para viabilizar um projeto, não funciona como um contrato com uma editora”, enfatiza o quadrinista. Em abril, ele pretende lançar uma campanha para financiar sua segunda HQ, intitulada De Dentro da Couraça.

Mas não é apenas a literatura que desfruta dos benefícios de um financiamento coletivo. A Paralelo Cia. de Dança, no intuito de comemorar seus dez anos de existência, decidiu investir em uma campanha, também através do site Catarse, com o nome de 10 Anos Paralelos. O objetivo era conseguir verba para viabilizar a realização do novo espetáculo do grupo, Lebenswelt. A meta, de R$ 1,6 mil, foi ultrapassada, totalizando R$ 2,2 mil, com a contribuição de 39 pessoas.

Imagens: divulgação