Por Elba Gomes

Calor insuportável. E nem era verão, ainda. Durante o dia, quase impossível executar as tarefas domésticas. Depois do almoço, sol a pino, os efeitos se faziam mais fortes, apesar de estar em casa. Aí, vinha aquele desânimo, quase um torpor. A partir das 5 horas, melhorava um pouco.

Mas, à noite, a coisa piorava. O calor atingia um grau quase inaceitável, e nem um tímido ventilador dava vazão. Colocar a cadeira na calçada também não resolvia muito porque parecia que da calçada, castigada o dia inteiro pelo sol, subia um vapor quente que envolvia a todos.

Na hora de dormir, então, era um pesadelo. A janela não era tão pequena, mas também não fazia diferença, pois o vento era parado. Aflitas, as pessoas olhavam para as pequenas árvores plantadas ao longo da rua. Nenhuma folha se mexia.

E a chuva? Essa indagação passava pela boca de todos.

– Sei, não, comadre. Hoje em dia não se sabe mais nada. Parece que a Terra ficou biruta. Antigamente, a gente sabia quando vinha a chuva, o frio, o calor… Hoje, não se sabe mais nada.

– Antônio, precisamos comprar 2 aparelhos de ar condicionado!

– O que é isso, mulher, você sabe quanto custa um bicho desse?

– Não sei nem quero saber. Nós precisamos e pronto!

– Isso é bobagem. O ventilador resolve.

– Você sabe que não. Todo dia a gente acorda que nem pano de cuscuz. Suados até a alma.

– E por que dois aparelhos?

– Raciocina, homem, um para o nosso quarto e outro para a sala porque eu preciso ver minhas novelas com mais conforto. Do jeito que tá, nem consigo acompanhar direito o que acontece.

– Você pode ficar do lado de fora da janela e olhar a TV dentro de casa.

– Mas que ideia de jerico. Tá achando que sou doida, é?

O marido já estava quase doutrinado, quando salta do fundo da sala uma adolescente que, aparentemente, nem tomara conhecimento da discussão.

– Engraçado! Ninguém se lembra da minha pessoa, aqui? Vocês vão ficar no bem bom, e eu continuo a “torrar” a noite inteira.

O pai, apavorado, olhos arregalados, tentou, inutilmente, argumentar:

– Mas, você dorme tão tarde! Passa a maior parte do tempo no computador  e dorme bem menos que nós…

– Isso é discriminação! Se vão comprar pra vocês, também quero o meu!

Não houve jeito. O “massacrado” pai de família sai, profetizando que aquilo iria causar um rombo no orçamento já tão apertado. Pagou um absurdo pela instalação em dose tríplice.

Tudo funcionando, felicidade total. A mãe assistindo suas novelas sem a humilhante situação de ter que se abanar o tempo inteiro. Até foi possível, convidar umas vizinhas para desfrutar daquele conforto. A adolescente, navegando na internet, confortavelmente. E o sono reparador numa atmosfera tão gostosa que levantar cedo para ir à escola passou a ser um novo suplício. O casal dormindo satisfeito e desfrutando de uma excelente noite de sono; e de sonhos…

O mês passou rápido. A conta chegou. E, com ela, um pesadelo inimaginável. O pai olha o boleto da conta de luz e não acredita no que vê.

– O quê? A partir de hoje, ninguém liga mais esses malditos aparelhos!

O casal volta a dormir no  calor, a adolescente espera os pais dormirem para ligar o seu aparelho e a mulher passa pelo constrangimento de receber as amigas para assistir às novelas.

– Mas, Margarida, por que não liga o ar refrigerado?

–  Pois é. Se não ligo, morro de calor; se ligo, morro de medo da conta da luz!

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Fotos: Divulgação

 

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Elba Gomes
Nasceu em Pilões, na Paraíba. Graduada em Letras Clássicas e Modernas pela UnB, fez mestrado em Educação. É professora, educadora e especialista em Avaliação da Educação Básica - Prova Brasil – Língua Portuguesa. Começou como professora aos 16 anos de idade. A leitura foi sua vocação primeira. É escritora de livros infantis, com o pseudônimo de Elba GGomes e tem mais de quinze livros publicados. Participa de eventos para o desenvolvimento do processo de leitura e escrita, mediação de leitura e formação de professores na área de avaliação da educação básica. Escreve o blog: www.1blogdeleitura.blogspot.com.br. A escritora estará neste site, toda segunda-feira, escrevendo crônicas (A crônica de todos nós), tecendo comentários sobre livros infantis (De olho nos livros) e escrevendo ou publicando poemas de outros autores (Todo dia tem poesia).