Disputa de Dois

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Abertura das Olimpíadas Rio 2016 - Imagem: Divulgação

por Andrea Nakane

Quando surgiu a 776 a.C, os jogos olímpicos da antiguidade, tinham sua esfera evocada na religião, e servia como uma espécie de pacto para que animosidades e adversidades territoriais e de poder expostas em batalhas violentas, tivessem uma trégua e todos, sem exceção e desculpas, prestassem suas deferências aos Deuses do Olimpo, liderados por Zeus.

Quando o Império Romano ganha projeção e a hegemonia continental, os jogos entram no que chamamos em eventos de estágio de dormência e ficam nessa situação até o início do século XX, quando o Barão de Coubertin, ávido em contribuir para construir uma cultura de paz mundial, resgata os pilares competitivos do evento grego e os adapta em uma versão internacional, não mais restrita a uma única nação, e que pudessem promover desafios esportivos, direcionando essa “batalha do bem” em uma tentativa de amenizar a situação de intolerâncias e guerras, que vislumbravam-se nos horizontes da nova ordem global industrial.

O êxito foi imediato e durante décadas, ser sede de uma edição olímpica, já antecipava uma verdadeira disputa acirrada, que demandava investir em campanhas de candidatura, que não só convencessem os membros do Comitê Olímpico Internacional (COI), mas como todo o mundo, que seriam o local ideal para ser anfitrião desse acontecimento especial, que movimenta milhões de dólares em cada edição, traz projeções internacionais e tem o poder transformador de fazer com que obras de melhoria da qualidade urbana saíam do papel e fiquem como legado posteriormente a passagem do evento.

Porém, fazer a festa tem se tornado um grande martírio financeiro para quem torna-se sede desse que é considerado um dos maiores eventos do mundo. Simplesmente a conta não fecha, o déficit é impressionante e não há imagem e reputação, valores imensuráveis, que consigam fortalecer o discurso de Retorno sobre o investimento (ROI). Exemplos tristes podem ser dados por meio das experiências de Atenas (2004) e Rio de Janeiro (2016).

Juntar esportes e entretenimento, há muito tem fomentado grandes resultados. A simbiose dos segmentos até gerou uma nomenclatura específica, o SportsEntertainment e tem na famosa teoria de Debord, a Sociedade do Espetáculo, alicerces para configurar-se como uma perfeita combinação de emoções a ser consumida como um produto de lazer, com uma veia mercantilista de vultuosos rendimentos.

Mas o fato é que nesse cenário, basicamente, quem lucra é só o promotor do evento, por meio de cotas vultuosas de patrocínios e merchandisings e direitos de transmissão. Sua contrapartida é mínima e seu tilintar na caixa registradora é máximo.

Percebe-se, então, que é um paradoxal negócio e isso tem feito, cada vez mais que o interesse em receber uma edição olímpica torne-se menos atrativo para um país, já que o mesmo terá que arcar – praticamente sozinho – com todo o pesado investimento, sem garantia nenhuma de retorno.

Acompanhamos isso, recentemente com a escolha, ou melhor, o anúncio das próximas cidades sedes de 2024 e 2028.

Apenas duas cidades foram postulantes na disputa final… alguns locais, inclusive, desistiram antes, pois por meio de uma audiência pública interna, ao ouvir sua população, decidiram que os investimentos demandados deveriam ser utilizados em outras necessidades, consideradas prioritárias para a qualidade de vida de seus habitantes.

E como o COI sabe, que cada vez mais será um esforço brutal conseguir quem pague sua conta, acabou presenteando cada uma das “guerreiras cidades” com uma edição: Paris vai sediar Olimpíada de 2024; Los Angeles sediará em 2028.

Tanto a capital francesa, quanto a cidade dos Estados Unidos sediarão, dessa forma, a terceira edição de uma Olimpíada. Los Angeles foi a palco dos Jogos em 1932 e 1984, enquanto Paris ficou com o mérito em 1900 e 1924.

Eram outros tempos, outros comportamentos globais e o terrorismo implacável não rondava de forma sorrateira os quatro cantos do mundo, mas com especial alvo os países aliados contra sua existência.

Se o orçamento olímpico já é estratosférico, necessitando formatar um plano de viabilidade financeira disciplinado, sustentável e ético, e que a questão da segurança, cada vez mais torna-se preocupação em limites magnos, dá para imaginar a responsabilidade das comissões organizadoras francesas e norte-americanas.

Bom, o COI resolveu seu problema… agora o abacaxi está em outras mãos! Mas antes temos 2020, que pode ser a última edição olímpica que realmente chegou ao primeiro lugar no pódio por competências próprias e não por falta de adversários.

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Andrea Nakane – Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, possui especialização em Marketing (RJ), em Administração e Organização de Eventos pelo Senac (SP), em Educação do Ensino Superior e mestrado strictu sensu em Hospitalidade pela Universidade Anhembi Morumbi.

 

 

 

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