Caminho de Cora Coralina promete ser nova rota para peregrinos do Brasil

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Um dos trechos do Caminho de Cora Coralina - Foto: Marcello Dantas / Divulgação

Com mais de 300 km, a aventura poética será lançada no dia (20)

Superar a pé ou de bicicleta estradas inóspitas, trechos de muita mata, passar por formações rochosas e enfrentar a altitude requer, acima de tudo, um ato de fé. São pouco mais de 300 quilômetros de um trajeto que incorpora enormes doses de religiosidade, história e um cenário de belezas do Cerrado. O Caminho de Cora Coralina, que será lançado oficialmente na próxima sexta-feira, dia (20), na cidade de Goiás, está longe de ser apenas um roteiro turístico. O intuito é transformar o percurso em rota obrigatória para peregrinos de todo o Brasil.

O trajeto de Cora – inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha – corta sete cidades goianas: Corumbá de Goiás, Pirenópolis, Jaraguá, São Francisco de Goiás, Itaguari, Itaberaí e a cidade de Goiás. Boa parte do percurso passa por dentro de várias reservas, onde carros não conseguem transitar, mas alguns trechos podem ser percorridos em rodovias. O passeio é histórico e cheio de beleza. Os viajantes vão desfrutar de serras, nascentes, cachoeiras, corredeiras, quedas d’água, córregos e casarões e igrejas erguidos nos séculos 18 e 19.

A trilha começa em Corumbá e a primeira parada dos viajantes é na Igreja Nossa Senhora da Penha de França, edifício com paredes de pau a pique e adobe, coberto de telhas de barro e com mais de 250 anos de história. No trecho à frente, após 15 quilômetros de uma caminhada por estradas antigas e trilhas, o peregrino segue rumo ao Parque Estadual dos Pireneus, onde existe a Capela da Santíssima Trindade, a 1.385 metros de altitude e erguida em 1927. Após a jornada, os peregrinos seguem ao povoado de Caxambu.

O local simples na zona rural do povoado, a 27 quilômetros de Pirenópolis, é um dos pontos de pouso do Caminho de Cora Coralina. Na casa simples e aconchegante, os proprietários e trabalhadores rurais Joaquim Pontieri, de 59 anos, conhecido como seu Quinzinho, e Cleusenir Pontieri, 49 anos, a dona Cleusa, aguardam hóspedes cansados e com os pés cheios de calos. “Aqui passa gente de bicicleta, a pé, de moto. Não tem como contar quantas vezes já fiz o trajeto, mas vou a cavalo”, brinca Quinzinho.

Ajuda valiosa

Pinturas em árvores e postes demarcam as trilhas pelo interior. Os irmãos Thais e Rander Gonçalves de Sousa, de 24 e 26 anos, ela estudante de Agronomia e ele produtor rural, se encarregam de ensinar os truques para os peregrinos encontrarem a sinalização. Fundo amarelo indica que é de ida. Fundo preto que é a volta. Os jovens são conhecedores de cada detalhe da região, mas não participaram da demarcação. Sem sinal de celular ou na falta de um GPS na mochila fica a certeza de que as placas são grandes aliadas.

No meio do caminho, os viajantes terão o auxílio do estudante de engenharia Igor Siqueira, de 25 anos. Morador de Jaraguá, ele é um dos voluntários que participaram da demarcação e preparação do caminho no Parque Estadual da Serra de Jaraguá. A chegada até o pico de carro leva em média uma hora. Ciclista, ele conhece bem a região e os melhores lugares para escaladas e caminhadas. “Aqui já está 90% marcado. Eu faço esse percurso pelo menos uma vez na semana. A serra é nosso quintal e ele está de portas abertas.”

A parte final da peregrinação reserva uma importante visita histórica à Igreja de São João Batista, chamada de Igreja do Ferreiro, em citação ao antigo Arraial do Ferreiro, hoje assentamento rural. O local, construído em 1761, é aberto à visitação com exceção de terças e quintas-feiras. A derradeira caminhada se aproxima e o sentimento é de dever cumprido. O último pit stop é na cidade de Goiás, na Igreja do Rosário, que fica a pouco metros do Museu da Casa de Cora, ponto final do percurso. Agora é hora de comemorar.

O Popular