Brasil tem vocação para vinhos

0
108
Merlot entre os destaques da safra 2017 - Crédito: Tatiana Cavagnolli / Divulgação

A safra de deste ano já foi avaliada! O resultado mostra que a produção vitivinícola está mais madura do que nunca

Edi Souza

A jovem trajetória do vinho nacional faz dele um dos produtos que mais se assemelha ao seu próprio criador. Adaptável e persistente soam como adjetivos de quem disputa um lugar ao sol num País de clima e hábitos tão tropicais. Por isso, não se espante ao saber que a produção vive dias de fortalecimento de cultivo e valorização das suas uvas mais competitivas no mercado. É cenário que tem na safra 2017 a chardonnay como uva branca de potencial para vinhos leves e refrescantes. Tão importante quanto o merlot, considerado um forte representante nacional entre os tintos, segundo análises da 25ª Avaliação Nacional de Vinhos, realizada semana passada, no Rio Grande do Sul.

Essas variedades se adaptaram muito bem ao solo e clima de diversas regiões brasileiras, assim como outras tantas. Este ano, ambas (chardonnay e merlot) classificaram mais de uma amostra, mas isso não significa que se sobressaem às demais”, resume o presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Edegar Scortegagna, antes de citar as demais produções que deverão chegar com força ao mercado no próximo ano. “Entre as 16 amostras se destacam quatro variedades brancas: riesling itálico, chardonnay, sauvignon blanc e moscato giallo; e seis tintas: cabernet franc, petit syrah, merlot, malbec, cabernet sauvignon e tannat”, completa.

Rio Grande do Sul se destaca na produção - Crédito: Tatiana Cavagnolli / Divulgação
Rio Grande do Sul se destaca na produção – Crédito: Tatiana Cavagnolli / Divulgação

O evento é um dos indicativos de que o tema movimenta a economia, principalmente no Sul do País – de onde saíram todos os ganhadores desta edição. Em números, foram 327 amostras inscritas por 59 vinícolas de seis Estados, sendo Bahia, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Entre eles saiu o ranking dos 30% mais representativos direto para a avaliação. E foi lá que a reportagem de Sabores se misturou aos quase mil degustadores e encerrou a estada de cinco dias na Serra Gaúcha a convite do Instituto Brasileiro de Vinhos (Ibravin), com apoio da ABE, para conhecer o lado mais verde e amarelo da bebida.

Produto de origem

Nos dados apresentados pelo Ibravin, 90% da produção nacional está no Rio Grande do Sul e suas 15 mil propriedades vitivinícolas. Segundo o diretor técnico do Instituto, Leocir Bottega, ainda assim esse cenário não é visto pela sua potencialidade econômica, sendo mais um motivo para ações de reconhecimento no mercado. Eis que entra um processo cauteloso rumo à chamada Indicação Geográfica (I.G.), que vincula a qualidade de um produto ou serviço ao seu território de origem, reconhecida pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI).

Mapa do vinho - Crédito: Hugo Carvalho / Divulgação
Mapa do vinho – Crédito: Hugo Carvalho / Divulgação

Para você entender o que isso significa é como ter a certeza de que um presunto italiano veio mesmo de Parma ou o Champanhe da mesma região que o denomina na França. “Os produtores se organizam em associações que fazem esse pedido e passam a ser também o órgão gestor da Indicação Geográfica. A partir de então, eles seguem um regulamento de uso que estabelece os requisitos para esse produtor ganhar o selo e atestar a qualidade dos seus produtos”, explica o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Jorge Tonietto, ao sinalizar a classificação para Indicação de Procedência (I.P.) e Denominação de Origem (D.O.). Independentes, a primeira reúne exigências mais flexíveis e que abriga maior variedade de produtos, por isso é mais fácil encontrá-lo em várias outras regiões do Brasil, inclusive em referência para queijo, arroz e outros itens. Já no segundo, a área geográfica precisa ser mais bem delimitada e envolver tradições e estruturações ainda mais técnicas.

Segundo Tonietto, o Brasil tem seis regiões vinícolas com Indicação Geográfica. Cinco delas com I.P. Uma em Santa Catarina: Vales da Uva Goethe; e as outras quatro no Rio Grande do Sul: Altos Montes, Monte Belo, Pinto Bandeira e Farroupilha. Ainda na Serra Gaúcha, o Vale dos Vinhedos trabalha atualmente a D.O. Já as regiões do Vale do São Francisco, no Nordeste, da Campanha Gaúcha e da Serra Catarinense, ambas no Sul, a fase é de estruturação rumo ao I.P. “E isso pode durar em torno de 12 meses para se ter uma resposta do INPI”, completa o pesquisador.

Aqui vale uma ressalva para Pinto Bandeira. A região, já conhecida pelos espumantes, está em estruturação para uma D.O. da bebida entre as quatro das seis vinícolas da localidade: Cave Geisse, Don Giovanni, Valmarino e Aurora. “Essa é mais uma forma de preservação da nossa identidade territorial”, defende a secretária executiva da Asprovinho, Arlete De Cesaro. Se tudo der certo, no fim de 2018 sai o resultado da avaliação que, sendo positiva, reforça a fabricação tradicional champenoise e até interferências na identidade visual com número de rastreamento de cada garrafa.

A cultura do vinho

Se for comemorar ou não: erga uma taça de vinho! Esse hábito de referência europeia pede calma para você apreciar. Um convite para o enoturismo abocanhar fatias generosas de consumo em que boa parte dos produtos escoa por ali mesmo no Sul, como nos rótulos da Almaúnica, do Vale dos Vinhedos. “A maioria das vendas surge na própria vinícola e se junta aos pedidos da internet”, solta o proprietário Márcio Brandelli.

Na rota da bebida de Baco é fácil notar a vocação para vinhos brancos e espumantes. “Perfeitos para o clima do Nordeste”, divulga Pablo Onzi Perini, marketing da Casa Perini. Em Farroupilha, o presidente da Afavin, João Carlos Taffarel, reforçou o foco na variação das uvas moscato. “É quase certo que ela só exista aqui no Brasil, pois até agora não foi encontrada em nenhum outro lugar do mundo”, atestou. Na taça, ela expressa notas florais e boa sensação de acidez – qualidades marcantes do solo brasileiro. Já na região dos Altos Montes, o diretor da Goes e Venturini e presidente da Apromontes, José Virgilio Venturini, disse que muito em breve vai se ouvir falar ainda mais na uva cabernet franc, variação originária na França com toque mais suave em relação ao cabernet sauvignon. É que há tempos essa uva foi sendo deixada de lado, mas retomada às plantações graças à boa adaptação.

Dentro de um estilo nacional, também é fácil encontrar ofertas de uvas americanas com os chamados vinhos de mesa. É para paladares mais doces. Na Adega Chesini, em Farroupilha, o cultivo inclui as uvas bordô e isabel, consideradas as melhores nessa finalidade. Esta última, aliás, está no vinho canônico ou de missa, “que corresponde a 10% de faturamento”, segundo o proprietário da vinícola Ricardo Chesini.

Folha de Pernambuco