Bandeira de João Pessoa foi criada há 45 anos por monges beneditinos da Bahia

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Bandeira de João Pessoa (PB) - Imagem: Divulgação

Bandeira da capital foi criada a partir de conceito do IHGP e adotada por lei municipal de 1972

João Pessoa completa 432 anos neste sábado (5), mas a bandeira e o brasão da capital da Paraíba são bastante recentes neste contexto histórico. Criado há 45 anos, o pavilhão que se vê hasteado nos prédios públicos de João Pessoa só foi oficializado em 1972, pela lei municipal nº 1.624. Severino Ramalho Leite, secretário assistente do então prefeito Dorgival Terceiro Neto, lembra que a bandeira e o brasão foram encomendados pelo poder executivo municipal a um grupo de monges beneditinos da Bahia.

Ramalho Leite conta que o deputado Américo Maia, que era padre, comentou com Dorgival Terceiro Neto que não havia nenhuma bandeira ou brasão de armas oficial da cidade de João Pessoa. Foi a partir dessa inquietação que em 1972, a prefeitura contratou o mosteiro beneditino para desenvolver o brasão e a bandeira da capital paraibana, com a assessoria do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP) e do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica (IPGH).

“Não havia nada: nem bandeira, nem brasão. Conversei com Dorgival, após a indicação de Américo Maia. Foi feito um contrato com os monges, nós que pagamos pelo serviço na época. Cada símbolo, cada detalhe desenvolvido pelos monges beneditinos, foi feito com a ajuda do IHGP e do Instituto de Heráldica daqui, para garantir que a nossa história estivesse representada”, explicou Ramalho Leite.

A bandeira, ornada em listras horizontais vermelhas e brancas, com uma tarja preta vertical e três coroas com a aparência de fortalezas, sendo cada uma delas com quatro torres, é basicamente a mesma estrutura contida no brasão de armas. As exceções no brasão são os golfinhos, um em cada lado, para indicar que João Pessoa terra é litorânea e o lema em latim intrepida ab origine.

Bandeira da cidade de João Pessoa foi oficializada apenas em 1972 (Foto: Reprodução)
Bandeira da cidade de João Pessoa foi oficializada apenas em 1972 (Foto: Reprodução)

‘Heróicos desde a origem’

Mestre em história pela UFPB, Matheus Guimarães conta que a ideia do lema Intrepida ab Origine, que em tradução livre significa “heróicos desde a origem”, parte do fortalecimento de uma identidade paraibana, pensada no início do século XX pelos historiógrafos do IHGP à época. Ele conta que os integrantes do instituto indicavam um esforço para estabelecer um conceito de paraibanidade.

“Até os primeiros anos, após a fundação do IHGP, havia uma associação histórica muito forte da Paraíba com Pernambuco. Foi por conta dessa ‘subordinação’ que os historiógrafos do IHGP começaram a destacar a bravura da civilização que deu início ao que hoje conhecemos como a capital da Paraíba. Por isso o lema ‘heróicos desde a origem’ ganhou força”, comentou.

O artigo ‘A produção historiográfica e as histórias da Paraíba na produção do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano’, publicado em 2003 pela doutora em História pela UFPE, Margarida Maria Dias de Oliveira, detalha o interesse dos historiógrafos do IHGP em estabelecer a ideia de “existência de um tipo específico de ser humano que se define por ser paraibano”.

“A preocupação do Instituto Histórico em produzir uma história separada da de Pernambuco nasceu da necessidade de criar uma identidade paraibana. Como aos interesses político-econômicos das elites, a partir do final do século XIX, interessava a confecção de uma identidade nordestina aos interesses políticos históricos locais, cabia a composição de uma identidade paraibana”, explica em seu artigo.

Brasão de armas mantém identidade gráfica da bandeira de João Pessoa, feita pelos monges beneditinos (Foto: Reprodução)
Brasão de armas mantém identidade gráfica da bandeira de João Pessoa, feita pelos monges beneditinos (Foto: Reprodução)

Identidade sobre três pilares

A partir da análise das revistas do IHGP e de livros da História da Paraíba, Margarida Maria Dias de Oliveira explica que o conceito de paraibanidade, uma ideia voltada à população da capital, se baseava em três pilares: a singularidade na história da cidade, nascida de um tratado de paz entre colonizadores e índios, ao contrário das demais, surgidas de batalhas; a bravura do paraibano na resistência às invasões holandesas; e a nacionalidade dos moradores da primeira civilização, uma vez que a ideia de pátria ainda engatinhava.

A lei que oficializou os símbolos da capital paraibana partiu do próprio poder executivo com o ante-projeto, nome que recebiam os projetos de lei feitos pelo poder executivo. O prefeito Dorgival Terceiro Neto, em mensagem enviada ao presidente da Câmara de Vereadores de João Pessoa, à época Carlos Alberto Pinto Mangueira, ressalta a importância da aprovação da lei que institucionalizava o brasão de armas, a bandeira e o estandarte.

No texto, o prefeito de João Pessoa explicou os significados dos principais símbolos presentes no brasão e na bandeira. A faixas vermelhas na heráldica são atribuídas às famílias Leitão e Silveira, em “uma feliz coincidência a Martim Leitão e Duarte da Silveira, que personalizam a fundação da cidade, suas primeiras lutas contra os franceses e a integração dos aborígenes [nativos]”, diz o prefeito na mensagem.

Mensagem de Dorgival Terceiro Neto justifica aprovação da lei (Foto: Reprodução)
Mensagem de Dorgival Terceiro Neto justifica aprovação da lei (Foto: Reprodução)

Cores remetem à bandeira da Paraíba

As cores vermelhas e pretas ainda remetem à bandeira do estado da Paraíba, feita em homenagem a João Pessoa. As três coroas murais que ornam a parte central do brasão e da bandeira caracterizam, segundo Dorgival Terceiro Neto, as denominações que a cidade que já teve: Filipéia, Frederickstadt e Parahyba.

Além da versão contada por Terceiro Neto, há uma versão popular que indica as três coroas murais como representação dos três fortes construídos pelos portugueses no séc. XVI. Os três fortes levantados no estuário do Rio Paraíba pelos portugueses aparecem representados em mapas e pinturas datadas do início do séc. XVII, feitas pelo pintor e desenhista holandês Frans Post:

  • A fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo
  • O fortim da Ilha da Restinga, no estuário do Rio Paraíba
  • O forte de Santo Antônio, no distrito de Costinha, em Lucena
Os três fortes construídos pelos portugueses na entrada o Rio Paraíba estão representados nos mapas holandeses do séc. XVII (Foto: Rervm per octennivm in Brasilia/Reprodução/brasiliana.usp.br)
Os três fortes construídos pelos portugueses na entrada o Rio Paraíba estão representados nos mapas holandeses do séc. XVII (Foto: Rervm per octennivm in Brasilia/Reprodução/brasiliana.usp.br)

Fortes eram linha de defesa

A trinca de fortes formava uma linha imponente levantada pelos portugueses para combater invasões, que podiam ser avistadas ainda do Oceano Atlântico. Das três estruturas, a única que resistiu à ação dos invasores e do tempo foi a fortaleza de Santa Catarina, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na década de 1930.

Vigente desde (20) de abril de 1972, a lei ordinária originada a partir da inquietação do padre Américo Maia, do pedido de Ramalho Leite e da determinação de Dorgival Terceiro Neto não deixou a paraibanidade, preconizada pelos historiógrafos do IHGP de 1905, ser esquecida. Ainda que a identidade cultural e histórica do povo pessoense seja errática, o pavilhão hasteado nos prédios públicos, como manda a lei, é a lembrança de onde a população veio e o que é.

G1