Ataque em Las Vegas reacende debate sobre segurança em hotéis

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Usado como ponto estratégico para o maior ataque a tiros dos Estados Unidos, o Madalay Bay (ao fundo) não possui, assim como a maioria dos hotéis, inspeções de bagagens - Imagem: Divulgação

Um quarto no 32º andar Mandalay Bay Hotel & Casino, um dos mais luxuosos empreendimentos da cidade de Las Vegas e renomado pelo seu cassino e festas noturnas, tornou-se, na noite deste domingo (1º), palco estratégico do maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos. No apartamento, nada menos do que 23 armas de fogo foram encontradas pela polícia, utilizadas pelo suspeito, identificado como Stephen Paddock, para atirar durante quase dez minutos da janela do quarto sobre uma multidão de mais de 20 mil pessoas que acompanhava um festival de música country, a algumas centenas de metros do hotel.

Além de reacender o debate da posse de armas nos EUA, outra questão que deve pairar após o ataque, não apenas no país, mas no mundo todo, é a permissividade de hotéis em relação aos pertences que hóspedes trazem para dentro de suas propriedades. Afinal, o hotel utilizado para realizar os disparos não realizou tipo algum de inspeção que impedisse a entrada de um número tão elevado de armas. A atitude, porém, é comum na maioria das redes hoteleiras, que raramente realizam verificações mais acentuadas do conteúdo de bagagens.

Sites internacionais como o The New York Times, a Fox News e o site britânico Business Traveller levantaram um questionamento quanto aos seus efeitos da tragédia de Las Vegas, que deixou 59 mortos e ao menos 527 feridos, nos procedimentos de segurança de hotéis do país, para evitar que acontecimentos do tipo se repitam.

SER CONVIDATIVO E TER PRIVACIDADE AINDA É PRIORIDADE
Segundo o jornal de Nova York, é comum na hotelaria, por exemplo, não se realizarem inspeções mais aprofundadas para passar uma imagem mais “convidativa” para hóspedes. Um consultor de segurança da empresa AS Solution, Mac Segal, explicou ainda que, ao invés disso, estariam nas prioridades de segurança limitar roubos e furtos, além de expulsar pessoas vagando pelas propriedades do hotel sem de fato estar hospedado nele.

A questão da privacidade também seria um problema. Para o vice-presidente sênior de hospitalidade da corretora de seguros Arthur J. Gallagher & Co, Jim Stover, mesmo com o ataque de Vegas, a presença de scanner de explosivos e máquinas de raios-X – equipamentos padrão nos terminais de aeroportos – continuarão a ser raros em hotéis, devido à valorização que os hóspedes dão ao seu direito de privacidade. “A indústria hoteleira ainda não conseguiu tomar atitudes em termos de antiterrorismo”, afirmou Stover.

OUTROS CASOS
The New York Times relatou que outros casos de atendados em hotéis no mundo levaram a mudanças nos procedimentos de segurança. Um exemplo é o atentado terrorista de Mumbai, na Índia, em 2008, quando dois hotéis no centro da cidade foram alvos.

Atentado de Mumbai, em 2008, teve como alvo o Hotel Taj Mahal Palace, além de outros locais - Imagem: Divulgação
Atentado de Mumbai, em 2008, teve como alvo o Hotel Taj Mahal Palace, além de outros locais – Imagem: Divulgação

Após o acontecido, grandes cadeias de hotéis como Marriott, Taj e Accor começaram a usar detectores de explosivos e sistemas de raios-X em todo o país. Em Nova Deli, o hotel Lemon Tree Premier criou, inclusive, um software de reconhecimento facial, que permite que os funcionários identifiquem os visitantes quando se aproximam da propriedade.

Nos Estados Unidos, por outro lado, tais precauções ainda são escassas, e com algumas exceções, é legal inclusive transportar armas de fogo dentro do próprio hotel. No Mandalay Bay, por exemplo, as armas só são proibidas dentro cassino, enquanto nas demais áreas do empreendimento não há restrições, segundo o Buisness Traveller.

EFEITO VEGAS PODE LEVAR A NOVAS MEDIDAS
Para o site britânico, o assassinato em massa na cidade de Nevada pode, sim, levar a mudanças. Treinamentos adicionais para comportamentos suspeitos e controle adicional de bagagens maiores que o comum levadas para o hotel são alguns exemplos citados pelo presidente da iJet International, Bruce McIndoes, que realiza realiza auditorias de segurança de hotéis.

“Você pode trazer uma arma grande desmontada em uma mala pequena. Ninguém pensaria duas vezes sobre alguém carregando uma bolsa de golfe ou algo parecido”, explicou também a ex-agente do Serviço Secreto dos EUA, Angela Hrdlicka, para a rede Fox News. Agora consultora privada de segurança, ela afirma, porém, que o número de equipamentos trazidos pelo atirador Stephen Paddock poderia ter sido identificado, caso melhores medidas fossem instauradas. “Com base na quantidade de munição que este rapaz atirou, ele realizou mais de uma viagem até o quarto do hotel, ou utilizou ao menos um carrinho de bagagem para carregar tudo isso”, argumentou.

Outros especialistas, por outro lado, não acreditam que mudanças significativas sejam feitas. O consultor de segurança de cassinos e hotéis, Fred Del Marva, teria dito ao Business Traveller que a instalação de detectores de metais em hotéis, por exemplo, é algo “impensável”. “Nunca será feito”, afirmou.

Topo do Mandalay Bay oferece vista para ampla área de Las Vegas, como o local do Festival Country, onde morreram 59 pessoas a tiros - Imagem: Divulgação
Topo do Mandalay Bay oferece vista para ampla área de Las Vegas, como o local do Festival Country, onde morreram 59 pessoas a tiros – Imagem: Divulgação

Um dos problemas seria o quesito financeiro. “Você pode tornar qualquer área ou evento mais seguro, mas apenas se você estiver disposto a gastar muito dinheiro, muitos recursos e ainda criar muitos inconvenientes para as pessoas, algo que muitas delas não aceitariam de bom grado”, afirmou o diretor executivo da National Tactical Officers Association (NTOA), Thor Eells, ao site Fox News.

Para Mac Segal, consultor de segurança da AS Solution, enquanto não existir um melhor treinamento de equipes de segurança, os esforços de prevenção de riscos não serão o suficiente. Segundo ele, os hotéis de upscale gastam cerca de meio milhão de dólares, em média, em sistemas de câmeras em circuito fechado, e dedicam ainda mais dinheiro a fechaduras de última geração e sistemas de extinção de incêndio; mas poucos ensinam adequadamente os funcionários a identificar comportamentos suspeitos, como agressões, pagamentos em dinheiro ou visitas repetidas.

“Uma câmera de segurança nunca foi capaz de parar um homem armado”, finalizou Segal.

Panrotas