Afinal, o que é ser chique?

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Imagem: Divulgação

Por Elba GGomes

Glória Kalil, jornalista, empresária e consultora de moda brasileira, disse em uma de suas palestras que “Nunca o termo chique foi tão usado para qualificar pessoas como nos dias de hoje.” Depois de várias definições sobre o que é ser chique, conclui, sabiamente: “Porque, no final das contas, chique mesmo é Crer em Deus!”

Penso que, aqui cabe uma reflexão sobre a escravização da moda e de certos costumes contemporâneos. Quantas vezes criticamos pessoas que não se conduzem ou não se comportam exatamente de acordo com os ditames de uma sociedade consumista, extravagante, exigente e, por vezes, ditadora.

Pouco se sabe, por exemplo, sobre a origem do talher, apetrecho, hoje, indispensável à mesa e que atinge, muitas vezes, o mais alto grau de sofisticação. Isso, para não falar dos momentos de terror quando nos sentamos a uma mesa de banquete, onde os talheres, em número que nos parece excessivo, aparecem dispostos em ordem absolutamente arbitrária aos nossos olhos. “O que pegar primeiro? Por onde começar? Por que tantos garfos e facas? Das taças e copos, podemos escapar porque o Garçom sabe por onde começar e que tipo de bebida é apropriado a determinado tipo de taça ou copo.

“Até o século XI, quase todo mundo comia com as mãos. Os mais polidos usavam apenas três dedos para levar o alimento à boca. Nesse século, Domênico Salvo, um membro da corte de Veneza, casou-se com a princesa Teodora, de Bizâncio. Ela levou no enxoval um objeto pontudo, com dois dentes, que usava para espetar os alimentos.

Uma heresia, pois o alimento, fornecido por Deus, era sagrado e tinha que ser comido com as mãos. Pouco a pouco, membros da corte e do clero foram adotando o talher. Mas o hábito demorou para pegar entre a população. O espeto ganharia mais dentes e só passaria a ser popular no século XIX.

A faca é o mais antigo dos talheres. O Homo erectus, que surgiu na Terra há 1,5 milhão de anos, criou a primeira faca, feita de pedra. Certamente não era usada na mesa. Servia para caça e defesa. Desde então, o homem sempre carregou uma faca. Na Idade do Bronze, que começou por volta de 3 000 a.C., elas passaram a ser feitas com esse material e a se difundir. Nessa época, a mesma faca que servia para matar um homem era usada também para descascar frutas.

O primeiro a sugerir que cada homem deveria ter um talher para ser usado exclusivamente à mesa foi o cardeal Richelieu (1585 – 1642), um fervoroso defensor das boas maneiras, por volta de 1630.

Ao contrário da faca, a colher já surgiu com o objetivo de servir alimentos. Há registros arqueológicos de artefatos parecidos com esse talher com mais de 20 000 anos, feitos de madeira, pedra e marfim. Mas, no início, a colher era de uso coletivo, e parecia uma concha. “Quando surgiu o pão, há 12 000 anos, usava-se uma colher para jogar o caldo sobre ele”, conta o sociólogo Gabriel Bollaffi, da Universidade de São Paulo.

Como boa nordestina, quando criança, víamos pessoas mais velhas, principalmente no interior, saboreando alguns alimentos com as mãos. Embora usássemos talheres na nossa casa, aquilo parecia muito natural para nós. Pergunto: Quem já não amassou feijão verde com a mão, fazendo bolinhos que eram levados à boca – maior gostosura! Para outros alimentos, usava-se, simplesmente, a colher. Como dizia minha mãe, reprovando esse hábito, – “Costume de casa vai à praça.” – eu, pelo menos nunca deixei de, na minha casa, usar colher em vez de garfo e faca, a despeito da censura de minhas filhas.

Nas minhas andanças por esse país, vi, maravilhada, numa capital de um Estado do Norte, num espaço gourmet em frente a um Forte, várias barracas com comidas típicas. Era um domingo, dia de Vasco e Flamengo. A pracinha apinhada de torcedores: famílias inteiras com crianças de várias idades. Aboletavam-se nos bancos em frente às mesas enquanto eram servidas travessas de uma comida coberta por bananas-da-terra fritas. Mais interessante: ao redor da travessa, várias colheres de sopa; cada membro da família apanhava uma colher e todos se serviam do mesmo prato. E pareciam muito satisfeitos, comendo e assistindo ao jogo.

Há algum tempo, estava eu numa cidade no interior do Nordeste, ministrando um Curso de Formação para professores. O almoço era servido no refeitório da escola e sempre aproveitávamos aquela horinha para bater um papo com um ou outro participante. Num desses dias, sentei-me ao lado de uma professora. O almoço foi servido e, para meu espanto, vi a professora comendo com uma colher. Olhei para ela, entre surpresa e fascinada. Ela, sem nenhum constrangimento, perguntou-me:

– O que foi, professora?

– Nada, não, respondi. – É que tô morrendo de inveja de você.

– Mas, por que, professora?

– Porque você está comendo “de colher”.

Foi, então, que ela me olhou, sem entender muito. E eu adiantei:

– Voltei aos meus dias de infância, quando a gente comia de colher, mesmo em público. Ainda hoje, faço isso, mas só em casa.

Ela continuou sua refeição na maior naturalidade, pensando talvez, na minha esquisitisse com uma coisa tão normal. Que lição de vida! Nenhum curso ensina isso.

É, acho que Marta Kalil tem razão. E ouso acrescentar: – “Que professora chique!. Porque, chique, mesmo, é ser autêntica; é carregar consigo essa brasilidade cromatizada de vários tons e costumes.

Imagem: Divulgação
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