A uma velha amiga

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Imagem: Divulgação

Por Elba GGomes

A cidade era tão pequena, tão simples que acho que nem existia no mapa. Biblioteca, nem sabíamos o que era; livraria também não existia naquele lugarejo. Porém, descobri duas senhoras que possuíam biblioteca particular. E, devo confessar, foi o grande achado da minha infância, pois, aos sete anos, já era ávida por leituras, mesmo naquele oásis intelectual.

Tezinha, senhora de engenho, possuía um casarão estilo “canavial”. Era imponente e ficava na única praça, em frente à igreja. Mas o cômodo mais importante era, para mim, a biblioteca. D. Nazinha, esposa do único dentista do lugar, era uma velhinha intelectual, uma dama. Falava um Português castiço e possuí uma vasta cultura. Sua biblioteca era meu refúgio predileto.

Embora minha família não pertencesse à casta dos “senhores de engenho”, meu pai era um próspero comerciante, e desfrutávamos de grande conforto, frequentando, inclusive, a “nata” da sociedade pilonense, no interior da Paraíba.

Assim, eu e meus irmãos tínhamos trânsito livre nas “melhores casas”, onde aconteciam, principalmente, na época das férias, saraus, bailes, audição de piano, festas juninas e todos os eventos sociais que agitavam aquela pequenina cidade.

Mas, enquanto os adolescentes se divertiam, lá ia eu explorar as estantes daquelas duas bibliotecas particulares à procura de livros que me transportassem ao país da fantasia: romances de M. Delly, de Germaine Acremant, como “As solteironas do Chapéu Verde” e tantos autores, inclusive os clássicos brasileiros e de outras nacionalidades (traduzidos).

No meio daquele rico acervo, deparei-me, um dia, com uma revista pequena, com artigos variados e algumas ilustrações. Tudo o que posso lembrar é que foi amor à primeira vista. Senti-me irresistivelmente atraída por ela e, após folheá-la, comecei a lê-la com sofreguidão. Só parei quando cheguei à última página: era a Seleções Reader’s Digest.

Desde então, ela se tornou minha companheira inseparável, minha amiga mais fiel e minha professora maior. Como viajei, como explorei distantes regiões, lugares inimagináveis! Conheci diferentes povos, solidarizei-me com tragédias e vibrei com muitas vitórias. Vivenciei histórias de personagens do “Meu tipo inesquecível” que, anonimamente, fizeram “história”. Conheci a neve, visitei reinos. E até soube que um rei abdicara de um trono por amor.  Aventurei-me pelos cinco continentes, participei da primeira expedição ao Polo Norte, conheci Pai Tomás e sua cabana, banhei-me em vários oceanos e vi muitas luas em diferentes céus. Enfim, abracei o Mundo com a paixão de uma criança, numa viagem sem fim.

Até hoje, já bisavó e escritora infantil, ainda me emociono todos os meses ao me encontrar com minha amiga de tantos anos. É sempre um prazer renovado. E ela permanece na minha mesa de cabeceira até ser substituída pelo novo exemplar. A leitura é feita diariamente porque, assim, posso desfrutar, aos poucos, desse puro deleite intelectual por mais  tempo.

O século passado trouxe mudanças incríveis para a humanidade e o advento da Informática, com o surgimento da Internet, estreitou fronteiras culturais e político-econômicas e globalizou o mundo. Mas, mesmo esse impacto formidável não se compara àquele produzido por aquela revistinha descoberta no meu tempo de criança.

E hoje ainda me surpreendo com a modernidade dessa Senhora de 75 anos que atravessou os tempos e continua exercendo seu fascínio e encantando gerações e gerações de leitores.

O  mundo mudou, a tecnologia exigiu de Seleções nova roupagem e lançou-lhe novos desafios. Ela aceitou-os e chegou ao terceiro milênio  com espírito jovem, continuando sua missão de integrar povos e culturas.

Ah, minha amiga, bendita seja a hora em que te conheci! Tu que acompanhaste toda a trajetória da minha vida: da infância à adolescência, desta à maturidade e da maturidade à melhor idade! Tu que ajudaste a construir meus castelos da infância e a vestir de sonhos meus devaneios da juventude. Preencheste minhas horas de lazer e até me encheste de coragem nos momentos difíceis. E quantas vezes foste minha companheira das horas de solidão! Ainda te lembras das vezes que fomos aos hospitais: consultas, operações… Aos supermercados, aos bancos com filas intermináveis? Ao cabeleireiro? Quantas vezes tiramos férias? E as horas passadas à beira-mar, embaladas pelo canto do vento e pelo farfalhar das ondas? Ah! Tantos lugares, tantos momentos, minha cara! Toda uma vida juntas.

Sei que sobreviverás a mim e passarás incólume para o próximo século, ou mais. Ainda assim, nossa amizade será perene porque te apresentei às minhas filhas e netos que, por sua vez, te apresentarão aos seu descendentes. Isso faz de ti uma amiga atemporal, universal e única!

Imagem: Divulgação
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