O mês de luto está se encerrando um pouco menos triste: o artista Abelardo da Hora completa hoje 90 anos, vivíssimo, saudável e produzindo ativamente. “Igual a ele, só Tomie Ohtake”, vibra o colega e pesquisador Dyógenes Chaves, referindo-se a outro patrimônio da cultura brasileira que, no ano passado, estava presente no próprio centenário.

Com obras espalhadas por toda João Pessoa, o pernambucano está inaugurando hoje na capital vizinha, Recife, uma gigantesca estátua exposta permanentemente na Arena Pernambuco. “A estátua é enorme. Tem 7,5 metros de altura”, informa Abelardo da Hora Filho, diretor executivo do instituto que recebeu o nome do pai e que cuida de um acervo que só aumenta a cada ano.

Segundo o herdeiro, as obras executadas pelo artista mais recentemente já poderiam compor sozinhas uma individual.

Mas a principal vocação de Abelardo não parece ser as galerias, mas a rua, como indica Dyógenes Chaves. Ele enumera as obras mais representativas trazidas para a capital, entre elas o mural que figura na Residência Universitária Feminina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a escultura que está nos jardins da Rede Paraíba de Comunicação e as recentes Mulher na Rede e Mulher de Pernas Cruzadas, que adornam o espelho d’água da Estação Cabo Branco.

A mais antiga criação que veio a João Pessoa, a da Residência Universitária Feminina da UFPB (na rua Diogo Velho, próximo ao Mercado Central), data de 1956 e serviu de modelo para outro mural feito em Pernambuco, em um HOSPITAL    no município de Paulista (na região metropolitana do Recife). A parede pintada, em baixo relevo, representa uma sala de cirurgia. Segundo Dyógenes, a razão de o mural estar na casa de estudantes é que, antes, no local funcionava uma escola de enfermagem.

Para além destas importantes obras, o legado de Abelardo também se estendeu para o âmbito legislativo, com a lei que condiciona a construção de prédios com mais de dois mil metros quadrados, na cidade de João Pessoa, à exibição de uma obra de arte instalada na fachada do edifício. A lei paraibana é derivada de um texto que o próprio Abelardo sugeriu à Câmara Municipal do Recife na década de 1960.

“A lei daqui é do final dos anos 1980”, destaca Dyógenes. “Mas ela é controversa porque o próprio Estado não cumpre, já que uma edificação como o hospital  de Trauma, por exemplo, devia ter uma obra. Outro ponto controverso é que, no caso de obras privadas, as obras que são colocadas são aquelas que os proprietários julgam ser arte e, no caso de obras públicas, não são feitos concursos para eleger as obras que vão ser colocadas.”

A mais recente exposição de Abelardo da Hora em João Pessoa foi Amor e Solidariedade, na Estação Cabo Branco, em 2010. “Eu me sinto muito grato com a acolhida das minhas peças pelos paraibanos”, disse o artista ao JORNAL DA PARAÍBA, na época. Abelardo já foi casado com uma paraibana: Margarida Lucena (morta também em 2010), que ele conheceu em 1948.

Tiago Germano

 

Jornal da Paraíba